Entrevista rápida com os resultados das eleições europeias

Entrevista rápida com os resultados das eleições europeias

Finda a eleição, o que trouxe ela para o futuro da União Europeia?

 

Mais participação

Podemos começar pelo dado mais óbvio. Pela primeira vez na história das eleições europeias, a participação eleitoral subiu, e pela primeira vez em 20 anos voltou a ficar acima dos 50%. Não parece ser fruto de um acaso, mas sinal de uma maior preocupação pelos destinos da União Europeia. É importante que se traduza numa legislatura com cidadãos mais atentos e mais participativos – o voto, por si só, é coisa pouca.

 

Mais política

Além da maior participação, uma participação que vem refrear os cenários catastrofistas da UE. As forças extremistas e populistas não conseguiram ganhar terreno de forma notória, e houve um crescimento maior de liberais e verdes. Os partidos do centro, PPE e PSE, perderam a sua dominância conjunta das instituições e serão agora obrigados a fazer acordos. Se, por um lado, isso fará da política europeia algo mais interessante de acompanhar, também comporta riscos, já que a União Europeia não é um corpo político habituado a disputas políticas e a vencedores e derrotados.

 

Mais clima

O clima foi um dos grandes motores destas eleições. Os partidos verdes causaram grande impacto e isso terá uma consequência: esta legislatura será uma legislatura fortemente marcada pelo clima, seja pela aproximação da crise climática, seja pela pressão dos eleitorados.

A onda verde, no entanto, não chegou à costa uniformemente. Se, na Europa mais ocidental/norte, os verdes tiveram grandes resultados, a leste/sul há um autêntico deserto de partidos verdes. Isto tem uma explicação óbvia, já que estas economias estão ainda muito dependentes de indústrias consideradas avessas à ecologia. Será fonte de tensão acrescida na próxima legislatura.

 

Menos spitzenkandidat

Ainda não é certo, mas parece que podemos dizer adeus ao método de Spitzenkandidat, isto é, a escolha do presidente da Comissão Europeia no momento de eleger o Parlamento Europeu. O resultado mais fraco dos partidos que validam este método tem como consequência direta a transferência do poder de decisão para o Conselho Europeu, que prefere outro tipo de soluções. Só peço uma coisa: maior atenção ao equilíbrio de género.

 

Menos coesão institucional

O somatório de tudo isto é, para mim, uma maior instabilidade institucional dentro da UE. Há roturas cada vez mais claras ao longo de vários eixos, e será interessante perceber se isto é uma vantagem (por tornar a política europeia interessante de acompanhar e, assim, chamar cidadãos) ou uma desvantagem (por acentuar a sensação de que, de Bruxelas, os países vão sendo aprisionados, ditados, controlados).

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