Se tivesse sido um debate sobre legislativas, talvez não tivesse sido mau

Se tivesse sido um debate sobre legislativas, talvez não tivesse sido mau

Fazer um debate sobre as eleições europeias é uma tarefa urgente. Ontem, a SIC Notícias tentou. Ficou-se pela tentativa.

Durante duas horas, o jornalista da SIC Bento Rodrigues foi dando a palavra a Marinho e Pinto, João Ferreira, Pedro Marques, Paulo Rangel, Marisa Matias e Nuno Melo. A estrutura era simples de perceber: uma intervenção inicial livre, oito temas a tratar, e uma intervenção final, também livre, a encerrar.

O debate começou com o tema sondagens, lançado pelo moderador, que os políticos aproveitaram para usar como justificação para acusações nacionais. Em seguida? Um pedido de comentário sobre a transformação das eleições europeias em eleições de âmbito nacional, num teste para as legislativas. Uma pergunta, aliás, que se legitima a si própria. Meia hora depois de começar, ainda não tinham sido abordados temas verdadeiramente europeus. Seguiu-se uma discussão sobre fundos europeus que de europeu teve muito pouco, já que se centrou na disputa entre PS e PSD sobre medições a preços correntes e preços constantes.

Quando finalmente parecia que íamos passar a temas do futuro da UE, com uma introdução de Bento Rodrigues sobre a política externa da União Europeia, passamos… A uma discussão sobre a Venezuela, que mais pareceu uma oportunidade para picar João Ferreira do que para refletir sobre a condução de política externa. Finalmente, ao sexto tema, chegámos a uma questão importante para o nosso futuro coletivo: a ascensão da extrema-direita. Aí foi a vez de os candidatos darem respostas frouxas, na melhor das hipóteses descritivas, sem nenhuma a propor uma solução para o problema. Ao sétimo tema, já anunciando estar próximo do fim, o debate toca o tema do Brexit, mas com apenas alguns segundos para revelar que, excetuando Paulo Rangel, ninguém tem uma visão sobre o impacto da saída do Reino Unido na UE. No final, com pouco tempo para gastar, Bento Rodrigues decidiu investir em insinuações baseadas num ranking que não soube explicar.

Ora, eu não sei como costumam decidir os vossos votos, mas eu gosto de saber o que pensam os candidatos sobre os temas que se prevê que venham a ser mais importantes para o futuro. Depois deste debate, fico sem saber. Sobre a questão da extrema direita, não sei porque os candidatos preferiram não o explicar. Sobre tudo o resto, não lhes foi sequer dada oportunidade para não responder. Se é difícil escolher um vencedor deste debate, dada a pobreza que ele pôs a descoberto, é fácil apontar o principal problema: a incapacidade de lançar perguntas sobre os grandes desafios da União na próxima legislatura.

O ID-Europa tem tentado acompanhar essa reflexão, e portanto aproveito para sugerir três temas a abordar quando só há espaço para oito, deixando ainda margem para temas nacionais:

  • No âmbito da tecnologia, seria importante perceber que medidas se podem implementar na Europa para impedir a difusão de desinformação, perceber como se podem proteger os nossos dados, ou como pode a Europa ter voz quando as empresas que lideram a revolução tecnológica são Chinesas e Americanas.
  • A ciência é unânime em considerar as alterações climáticas como o maior desafio coletivo da humanidade. Temos até 2030 para evitar alterações irreversíveis do nosso ecossistema. O que pode a UE fazer? Aqui temos perguntas de sobra, que vão da União energética às escolhas de investimentos sustentáveis (pergunta que é sobre fundos europeus, mas realmente europeia).
  • Há uma ameaça de guerra comercial entre os EUA, a China e a União Europeia. Apesar de ser o maior bloco comercial do mundo e de ter uma voz una na política comercial, a UE é incapaz de se impor ao nível de política externa. Como evitar a escalada do proteccionismo? Que aliados terá a UE para uma reforma da Organização Mundial do Comércio?

Os temas poderiam ser muitos outros, é claro. Num debate a seis, a gestão de tempo e dos temas é uma tarefa ingrata. Isso não desculpa escolhas completamente erradas, que correm atrás das polémicas em vez de procurarem esclarecer quem assiste ao debate. Apelamos a que, nos próximos debates, se discutam temas europeus, mesmo que pareça que não são temas das europeias. Verão que será melhor estratégia.

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