O populismo digital já chegou à Europa

O populismo digital já chegou à Europa

Foto: The Presidential Administration of Ukraine

As mesmas plataformas tecnológicas que prometeram ligar o mundo estão a servir de barreira entre os políticos e o eleitorado, promovendo o populismo.

Na semana passada, escrevi no ID Europa sobre a crise da desinformação e a influência da tecnologia nos processos eleitorais, um tema relevante na medida em que se aproximam as eleições do Parlamento Europeu. Uma semana depois, há novos dados que mostram que a Europa não é imune ao populismo digital, um dos efeitos mais negativos das redes sociais.

Hoje, o conceito de fake news é usado nas mais variadas vertentes e por diversos agentes quando está em causa um ponto de discórdia, seja em matéria de opinião como em matéria de facto. Ora, o “populismo” atingiu um estatuto semelhante: muitas vezes, é “populista” aquele que propaga opiniões que chocam com as nossas ideias mais basilares.

Dito isto, nunca é demais lembrar o que é o verdadeiro populismo: é a “doutrina ou prática política que procura obter o apoio popular através de medidas que, aparentemente, são favoráveis às massas”.

Depreende-se da definição que populista é aquele que “procura obter o apoio” do povo e que, para tal, sugere medidas que “são favoráveis” a esse mesmo povo… na aparência. O uso da expressão “aparentemente” não é inocente: é que, na esmagadora maioria das vezes, as medidas propostas por populistas 1) são impossíveis de implementar; 2) têm efeitos difíceis de prever; 3) são binárias e reduzem o mundo a uma simplicidade que não é real.

Foi o que aconteceu com a discussão que se gerou em torno dos donativos para reconstruir a Catedral de Notre-Dame, que esteve na base de mais um sábado de protestos violentos em Paris por parte do movimento dos “coletes amarelos”.

O argumento que proliferou nas redes sociais (sobretudo Facebook e Twitter) foi o de que se há dinheiro para reconstruir a catedral, esse dinheiro devia ser canalizado para as reivindicações dos manifestantes, que defendem aumentos nos salários e ajudar os mais pobres, por exemplo.

Claro que isto é mais fácil dizer do que fazer, por vários motivos. Primeiro, porque uma grande parte do dinheiro dos donativos, que fez manchete nos jornais, foi doado por empresas, figuras ou instituições privadas. Segundo, porque é falacioso reduzir o debate a uma escolha supostamente binária, porque ela não é verdadeiramente binária — isto é, 1) dar dinheiro aos pobres; ou 2) reconstruir a catedral.

Sobre este primeiro ponto, a Vox fez um trabalho muito interessante onde explica porque é que ninguém é obrigado a escolher entre essas duas coisas e o porquê de a discussão não fazer qualquer tipo de sentido (até porque, por essa lógica, dar dinheiro a instituições de defesa dos animais ou gastar dinheiro em qualquer coisa que não fosse para “ajudar os pobres” seria ilegítimo).

O segundo caso digno de nota — fora da União Europeia (UE) mas já muito próximo do bloco — é a eleição de Volodymyr Zelenskiy como Presidente da Ucrânia no passado domingo. Zelenskiy foi notícia pelos mais variados motivos: por ser um comediante; por ter tido o papel de Presidente numa série na TV; por ser bom humorista; por dizer muitas coisas nas redes sociais.

Zelenskiy só não foi notícia por ter experiência política (porque não a tem), por ter propostas concretas para a Ucrânia (porque não se lhas conhecem) ou por ter apresentado alternativas ao candidato opositor (porque só à última da hora é que aceitou entrar num debate frente a frente).

Na verdade, Zelenskiy tem surgido nas notícias precisamente pelo oposto: por ter sido a primeira campanha eleitoral exclusivamente virtual a ter sucesso na UE, como se lia no Politico esta quarta-feira. E isso é da mais extrema relevância, depois do que aconteceu em 2016 nos EUA com o Presidente Trump ou, em 2018, com Jair Bolsonaro no Brasil (hoje, ambos governam sentados no sofá, de iPhone na mão, a partir do Twitter).

Como escreveu Adrian Karatnycky, senior fellow do Atlantic Council, os ucranianos pouco sabem das ideias de Zelenskiy para o país três dias depois das eleições, neste que é um momento de extrema sensibilidade na conflituosa relação com a Rússia.

Isto porque a campanha de Zelenskiy focou-se mais em pequenos vídeos na internet do que em contacto real com as pessoas. Segundo o jornal, Zelenskiy “não só beneficiou da imagem de ser fora do sistema, como não fez qualquer campanha cara a cara, não fez discursos, não fez campanha eleitoral nas ruas, evitou viajar pelo país, não deu conferências de imprensa, evitou entrevistas de fundo com jornalistas independentes e, até ao último dia da campanha, nunca debateu”.

Numa reportagem, a cadeia DW notava como Zelenskiy tinha ganhado as eleições por “ter prometido tudo a toda a gente”. Algo que é, atualmente, possível graças às mais complexas e avançadas técnicas de ultrassegmentação de anúncios no Facebook, por exemplo.

Não deixa de ser irónico que as redes sociais, que sempre se orgulharam de conectar o mundo, são hoje usadas por muitos políticos para, precisamente, evitarem o contacto com o eleitorado. E isto, para além das verdadeiras fake news, é outra das grandes ameaças da tecnologia à democracia.

Para concluir, vale a pena lembrar que estes mesmos alertas já começaram a surgir ao nível doméstico, aqui mesmo em Portugal e precisamente por causa das europeias. Em meados deste mês, o Público notava como o candidato socialista Pedro Marques, relativamente ativo nas redes sociais, tem protagonizado uma “total ausência de combate político”.

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