A UE em 2030: dois cenários

A UE em 2030: dois cenários

Para onde vai a União Europeia? Se a política é uma espécie de condutor do veículo, é crucial conhecer a estrada por onde se guia. Foi com o objetivo de “conhecer a estrada” que o Sistema Europeu de Estratégia e Análise de Políticas, ESPAS, trabalhou num relatório para apresentar aos decisores políticos europeus, que serão renovados no ano de 2019.

O resultado é o “Global Trends to 2030: Challenges and Choices for Europe”, que estaremos a acompanhar nos próximos dias aqui no ID-Europa. Hoje vamos olhar aos dois cenários que o relatório traça: um que pressupõe que agimos perante os dados que temos, e outro que pressupõe que não. Não são cenários “imaginados”. São o resultado da compilação de dezenas de estudos feitos por think-tanks independentes de várias nacionalidades e afinidades políticas.

Preferem primeiro as boas ou as más notícias?

 

O que acontece se não agirmos?

Vamos às más primeiro.

Clima: o países não cumprem os compromissos assumidos. Temperatura sobre mais de 2ºC. Custos com saúde e desastres naturais multiplicam-se e as migrações aumentam. Produção económica afetada por secas, cheias e outros eventos meteorológicos adversos. Mais de 100 milhões de pessoas são empurradas para a pobreza extrema quando chegamos a 2030. Capacidade da União minimizar danos é reduzida.

Envelhecimento: estilos de vida mantêm-se sedentários, o que custa 46,5 mil milhões de euros/ano aos países da UE. Malnutrição, exclusão social e ambientes laborais inadaptados a uma população mais velha contribuem para acentuar a saúde precária dos europeus e dos Estados Sociais.

Tecnologia: falta de regulação leva a consequências nefastas. Guerras travadas por robots levam a elevadas taxas de mortalidade de civis. Os dados pessoais dos europeus são usados para enfraquecer os processos democráticos e controlar as populações. Empregos continuam a perder-se para a automação. A UE deixa de ser competitiva na inovação

Democracia: relações com estados muito pouco democráticos nos Balcãs e no Médio Oriente continuam, o que contribui para a manutenção dos regimes. Na UE, os partidos populistas tiram partido dos desafios trazidos pelo clima e pela tecnologia, que outros partidos tardam em resolver.

Desigualdade: cresce, estimulada pela diferente capacidade de adaptação dos grupos sociais aos desafios já apresentados. É explorada por partidos populistas.

Sistema internacional: a incapacidade de a União Europeia ter uma voz credível na política externa impede-a de ajudar a mediar conflitos a leste e a sul, sofrendo as consequências em termos de segurança. O mundo perde uma voz em prol da democracia e dos Direitos Humanos.

 

E no caso de agirmos atempadamente?

Clima: são feitos esforços para resolver o problema e as temperaturas sobem menos, num aumento inferior a 1,5ºC. Cria-se uma coligação internacional, da qual faz parte a UE, para dar respostas. Há uma perda de PIB a curto prazo, que anda entre 9 a 32 mil milhões, mas que assegura um papel de liderança mundial num cenário pós-2030. Evita-se a queda de 100 milhões de cidadãos na pobreza extrema e escapa-se a um cenário de incêndios, doenças e menor produtividade económica. O uso de energias limpas ajuda ainda a reduzir a dependência energética da UE.

Envelhecimento: a população recebe incentivos para ter hábitos mais saudáveis e a legislação laboral permite uma adaptação dos postos de trabalho a uma população mais envelhecida. Isso traduz-se numa maior percentagem de europeus a viver de forma saudável (80%, versus 63% em 2018) e em poupanças nos sistemas de saúde. O clima também sai beneficiado por uma dieta mais saudável.

Tecnologia: um grande investimento em educação e requalificação da população permite que a tecnologia seja potenciadora de emprego e não de desemprego. A regulação da inteligência artificial coloca-a ao serviço dos humanos, substituindo apenas empregos repetitivos. A UE lidera um acordo internacional que interdita o uso de armas autónomas na guerra. O investimento europeu em I&D cresce para os 3% em 2020 e assegura um papel líder em alguns setores tecnológicos.

Democracia: os Estados europeus recuperam a sua veia democrática e o apoio a países mediterrânicos ajuda a consolidar democracias recém-conquistadas, sobretudo na Tunísia, o que permite criar uma frente democrática regional. O controlo de algumas das maiores ameaças – clima, desigualdade, automação – permite reagrupar os agentes políticos em torno de soluções que respeitam liberdades dos cidadãos. A criação de uma capacidade institucional robusta de previsão de ameaças e planeamento atempado de respostas reforça a voz da União e melhora a capacidade de lidar com os principais problemas.

Desigualdade: ao dar prioridade a políticas como o combate a evasão e elisão fiscal e a violações de direitos laborais, ou como a criação de um salário mínimo europeu, a desigualdade económica atenua-se.

Sistema internacional: a UE lidera o estabelecimento de alianças com outros blocos que apoiam a democracia, os Direitos Humanos e as liberdades individuais. A cooperação com a China e a Índia intensifica-se, contribuindo para a manutenção de uma economia globalizada e para um esforço global de proteção do planeta. A defesa no domínio da cibersegurança é também conseguida, e a autonomia na defesa é o resultado de maior cooperação e investimento integrado.

 

O que preferes?

São dois cenários apenas, é claro. Este estudo deixa estes cenários apenas como materialização da ação em larga escala e da inação completa. Entre os vários meios-termos poderão estar outras realidades. Mas não é por isso que passam a ser cenários “irrealistas”. Preferimos agir ou ficar como estamos? A escolha joga-se também no dia 26 de maio.

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