Quão séria é a crise das “notícias falsas”?

Quão séria é a crise das “notícias falsas”?

Tl;dr: é séria (e não são notícias).

À medida que a União Europeia (UE) ruma em direção às eleições, torna-se maior o risco de interferência externa num processo que se veste de grande importância para o futuro do bloco.

A ameaça ficou ainda mais clara numa altura em que persistem as dúvidas quanto à alegada influência da Rússia na eleição de Donald Trump e no resultado do referendo do Brexit. Soma-se a estes processos o da eleição de Jair Bolsonaro no Brasil.

O que tiveram os três em comum? A tecnologia e a internet como veículo de desinformação. As chamadas fake news, “notícias” taxativamente falsas que não são notícias, com o único propósito o da desestabilização da sociedade e da economia.

Estará a UE preparada? Aos poucos surgem os primeiros sinais de que, apesar dos esforços de Bruxelas na mitigação do problema, a questão de fundo ainda permanece.

Escreveu a CNBC esta terça-feira que “a UE não está preparada para lidar com a influência russa nas eleições”. O primeiro argumento é o de que não há uma harmonização das leis de financiamento dos partidos, havendo em alguns Estados-membros portas escancaradas à entrada de dinheiros vindos do exterior com objetivos eventualmente menos nobres e pouco transparentes. Mas não é tudo. Os países também deviam partilhar informação acerca das notícias falsas e tornar pública toda e qualquer tentativa de influência que venha a ser detetada.

Para tal — acrescento eu –, é preciso que as próprias plataformas se predisponham a ser parte da solução, até porque são igualmente parte significativa do problema. Facebook, Google e Twitter, as principais, já se comprometeram a reportar periodicamente os avanços feitos nesta vertente, com o Facebook a preparar o lançamento de uma espécie de arquivo para anúncios financiados por partidos políticos ou de caráter propagandista.

Mas importa não esquecer que os algoritmos são falíveis (veja-se o facto de o YouTube ter catalogado vídeos do incêndio na catedral de Notre-Dame como se fossem uma “conspiração do 11 de setembro”). E, ainda pior, já se sabe que dados pessoais dos utilizadores do Facebook continuam a aparecer em sítios estranhos pela internet fora (a última vez foi num servidor público da Amazon).

A tendência é grande para menosprezar o problema e manter o status quo. Se dúvidas existirem, basta lembrar que, a poucos dias das Presidenciais brasileiras, era elevado o número de notícias falsas partilhadas entre grupos no WhatsApp. Além disso, é pública e notória a grande quantidade de informação falsa que tem circulado no espaço político internacional, o que tem motivado trabalhos jornalísticos de grande qualidade, dedicados à verificação de factos com recurso à inteligência artificial.

O problema da propaganda com base em informação falsa, acelerado pelas tecnologias da informação, é real e representa uma ameaça à integridade europeia. Enquanto não for visto com o respeito e a importância que merecem, prevalece a ameaça à vida ordenada da sociedade europeia e ao projeto europeu, tal como o conhecemos.

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