Cimeira UE-China: vencerão os princípios ou vencerá o dinheiro?

Cimeira UE-China: vencerão os princípios ou vencerá o dinheiro?

Amanhã há cimeira UE-China, uma espécie de Nadal-Djokovic da diplomacia. O que está em jogo?

 

Comércio Internacional

Tanto a União Europeia como a China estão interessadas em recuperar o bom funcionamento da Organização Mundial do Comércio, que os Estados Unidos têm impedido. No entanto, esse bom funcionamento representa coisas diferentes para a China e para a União Europeia. A China procura um sistema internacional que seja favorável aos seus planos de investimento internacional, uma espécie de rota da seda 4.0; a União Europeia procura manter as vantagens que, historicamente, as organizações internacionais sempre lhe conferiram.

Há também problemas com as trocas comerciais entre a União Europeia e a China – a China tem uma economia baseada na exportação mas que na verdade é muito protecionista (isto é, que impõe barreiras à entrada de produtos externos no seu mercado interno). Ora, sendo a China um dos principais destinatários das exportações europeias, isto é um problema grande para a União, por limitar as condições de competitividade das suas empresas.

 

Economia

Para além de problemas comerciais, há também problemas de escala e de incentivos estatais. Como pode a União Europeia e a sua indústria competir com empresas Chinesas que recebem ajudas enormes do Estado e têm um mercado de 1,2 mil milhões de consumidores, cerca de 2,5 vezes mais que a totalidade da União Europeia pré-Brexit? Será assunto abordado também.

A China tem vindo a alargar os seus investimentos a países europeus, e Portugal está bem no centro desta discussão – foi um dos primeiros países europeus a ser alvo de grandes investimentos chineses. De momento, no entanto, o epicentro da polémica é a Itália, um dos membros fundadores e uma das maiores economias da União Europeia.

 

Tecnologia

A China tinha, há uns anos, fama de copião: vê o que se faz no ocidente e copia, sem grandes preocupações com questões de Direitos de Autor e Propriedade Intelectual. Era uma espécie de tática de miúdo curioso, a abrir o boneco para ver o que tem lá dentro, mas em vez de no fim acabarem com um brinquedo estragado, foram conseguindo ter tecnologia própria.

Nos últimos tempos, contudo, o panorama tem-se alterado, e a China começa a ter capacidade própria de inovar. Misturando a mestria tecnológica com umas tendências autoritárias, começam os problemas. Atualmente, é uma empresa chinesa que tem o domínio tecnológico de uma importante inovação, o 5G (já leste o artigo do Flávio sobre este assunto?).

O problema? Segundo o Estado Chinês, a informação das empresas chinesas pode, a qualquer momento, ser requisitada pelos Serviços Secretos Chineses. Imaginem lá ter os políticos europeus a comunicar através de infraestrutura chinesa que pode ser “escutada” a qualquer momento… Não é lá grande ideia – pelo menos é o que têm vindo a dizer os Estados Unidos e os chefes da NATO.

 

Direitos humanos

A União Europeia gosta de se afirmar como paladina dos direitos humanos no mundo, e os europeus gostam de ter orgulho nisso. O que fará a União durante uma cimeira com um Estado que oprime segmentos consideráveis da sua população e que usa cada vez mais a tecnologia para vigiar e punir/recompensar os seus cidadãos?

A China, como está bom de ver, odeia este tipo de conversas em fóruns internacionais. Evitará a União mais um assunto polémico para não extremar posições? Ou manterá uma posição de princípio, arriscando sair da cimeira de costas ainda mais voltadas?

 

E então, afinal em que ficamos?

Excelente pergunta, mas tudo indica que será um resultado fraco. Nestas cimeiras acontece já haver um rascunho das conclusões antes de os líderes se encontrarem (sim, a diplomacia funciona de forma estranha). Neste caso, nem esse documento muito básico está a ser possível construir – tal como não foi em 2016 e 2017. A União vai provavelmente ter de escolher entre uma ganhos económicos ou ganhos “de princípio” (nos direitos humanos ou até no clima).

Amanhã saberemos mais, mas parece ser mais um sinal de que as relações entre China e União são cada vez menos de cooperação e cada vez mais de confrontação.

Leave a Reply

Your email address will not be published.