A UE tem um problema com startups

A UE tem um problema com startups

Não há uma fórmula para criar startups de sucesso. Mas as tecnológicas de maior dimensão — as GAFA: Google, Amazon, Facebook e Apple — são todas norte-americanas.

Acontece o mesmo com as principais startups, os chamados “unicórnios”, empresas multimilionárias de crescimento rápido que criaram os seus próprios mercados e faturam milhares de milhões nos dias de hoje. É o caso da Uber e do Airbnb.

Diz-se que, das grandes plataformas tecnológicas que estão a marcar esta geração, só uma nasceu na Europa. É sueca, foi lançada em 2006 e chama-se Spotify.

Mas o que é que eles têm e nós, na Europa, não temos? Porque é que parece haver mais casos de empresas chinesas a comprarem startups europeias do que empresas europeias a comprarem startups chinesas? Ou até norte-americanas?

É um problema de fundo. É um problema. E os responsáveis europeus sabem disso: para fomentar a ciência e a inovação, para incentivar os empreendedores a criarem coisas novas, para fazerem as ideias saírem cá para fora, é preciso criar condições.

É preciso simplificar. E desburocratizar.

Não é por isso surpreendente que a França e a Alemanha, ambos países europeus com ecossistemas empreendedores cada vez mais apurados, estejam a liderar a frente de defesa de uma ideia que já está em testes desde 2017 na União Europeia (UE): a instalação de um Conselho Europeu para a Inovação (CEI), ou European Innovation Council, no original em inglês.

A premissa é simples: Bruxelas tem um enorme orçamento para investir em ciência e em tecnologia, mas os altos responsáveis podem não ser as pessoas ideais para definir onde aplicar esse investimento. Que o diga o comissário português Carlos Moedas, titular das pastas ligadas à ciência, à tecnologia e à inovação, que já admitiu conhecer casos de empresas com boas ideias e que não conseguiram financiamento comunitário por questões meramente burocráticas.

A ideia por detrás do CEI passa por criar um board de investidores experientes, empreendedores e académicos, responsáveis por analisar as ideias propostas e desenhar os investimentos. Ou seja, o objetivo é criar um conselho europeu independente com competências para definir onde é que a UE deve apostar, com vista à promoção e fomento da inovação.

Paris e Berlim defendem que o CEI deve ter plena autonomia para fazer as mais profundas e arriscadas apostas em tecnologia, como nos conta o Financial Times. Porque quanto maior o risco, maior é o potencial de retorno (e se há capital para investir, então vale a pena arriscar).

Esta vai ser uma das próximas bandeiras do comissário Carlos Moedas que, no próximo programa comunitário Horizonte Europa, incluiu como uma das muitas missões estratégicas a aposta em áreas menos óbvias mas com grande potencial de impacto. É o caso da descoberta de curas para o cancro, aponta o jornal financeiro britânico.

Claro que também há riscos. A existência de um conselho independente deve ter como pressuposto a existência de uma imparcialidade na análise. E já há quem receie que o CEI acabe por se dedicar mais a investir em startups francesas e alemãs, ao invés de apostar também em empresas sediadas em mercados de menor escala. Como o português.

Ainda assim, com os seus altos e baixos, vantagens e desvantagens, estão lançadas as bases para uma medida de incentivo à criação de startups. Uma boa notícia para quem procura soluções para grandes problemas comuns e precisa de apoio financeiro para, pelo menos, tentar chegar a elas. Resta saber de que forma vai ser implementada e se terá os resultados que se espera.

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