Aviso: nenhuma criança “fica homossexual” por ouvir falar sobre gays

Aviso: nenhuma criança “fica homossexual” por ouvir falar sobre gays

Temos um problema grave com o nosso conceito de educação. Temos um cuidado a falar de temas “sensíveis”, que está quase sempre mascarado de preconceito e até de alguma repulsa. Quando digo “temos”, falo obviamente de quem acha que uma criança “se torna” homossexual por ouvir falar sobre pessoas homossexuais e de como “normal” é sê-lo. Falo dos adultos que imaginam que uma criança vai chegar a casa a pedir para mudar de sexo por ter ouvido numa aula que as pessoas podem fazê-lo se assim o sentirem. Falo de quem acha que os meninos e as meninas vão ficar contaminados, perdidos ou descompensados por serem estimulados a experimentar brinquedos, tarefas ou roupas ditas do outro género.

Nesta discussão mora preconceito, sim, mas mora também ignorância. Acredito que os dois problemas podem ser resolvidos, se as pessoas assim o quiserem. Mas as notícias que nos chegam não nos alegram. Em Birmingham, no Reino Unido, várias escolas estão a deixar de dar aulas sobre homofobia e igualdade LGBT por causa de vários protestos de pais. O caso começou em janeiro e chegou à BBC. Vários pais na Parkfield Community School reclamavam que o que era ensinado aos filhos naquelas aulas era contra os “ensinamentos islâmicos” que defendiam. Mariam Ahmed, uma das mães, elaborou uma petição contra o projeto “No Outsiders”, que era concretizado pela Leigh Trust, uma organização especialista em programas de educação para escolas. A escola defendeu-se dizendo que o objetivo era educar as crianças para aceitarem todas as pessoas da sociedade, mas um outro pai, Mohammed Jdaitawi respondeu: “É bom ensinar as crianças sobre respeito e outros valores mas a questão da orientação sexual é contra os nossos princípios”.

Seguiram-se argumentos de todos os lados. Amir Ahmed, um outro pai, invoca os “valores tradicionais de família” e diz que não considera a “homossexualidade como uma relação sexual que seja válida de se ter”. O professor que elaborou o projeto (e que foi condecorado pelo serviço em prol da igualdade na educação em 2017) explica que o objetivo é que os alunos e alunas sejam pessoas preparadas para viver num “país moderno como o Reino Unido” e ensiná-los a “terem orgulho em quem são e a celebrar a diversidade e a diferença”. A Leight Trust acabou por suspender o programa, após fortes protestos. Na semana passada, houve mais quatro escolas de Birmingham a suspender estas aulas. Aqui há uma forte questão de valores culturais e de conceções também ligadas à religião. É um país (ainda da União Europeia) a borbulhar com a diversidade de mentalidades e de comportamentos que o preenche.

Em Portugal, o debate público também agitou com as ações que a rede ex aequo faz em escolas sobre a igualdade LGBTI ou sobre as cores sem género, ensinando os estudantes que está tudo bem com eles mesmo que gostem do colega quando todos o empurram para a miúda do lado. A associação tem feito um trabalho louvável junto de jovens e dos próprios pais, com eventos como o Encontro Nacional de Jovens Trans — um momento que ajuda ao coming out num espaço seguro, onde os jovens podem ligar-se a alguém com quem se identificam, com quem partilham as mesmas dúvidas e onde percebem que não estão sozinhos. Um momento que serve também para os pais se tranquilizarem com os filhos e com o que vem aí. Só quem desconhece o trabalho destas organizações é que pode repugnar o que fazem, só quem deixa o preconceito infestar a razão é que pode entrar em pânico com o facto de o filho ser incentivado a experimentar brincar com uma Barbie.

Esta é a realidade: os nossos filhos, os vossos filhos, vivem num país diverso, numa União Europeia multicultural, num mundo globalizado onde todas as pessoas são, gostam, querem e pensam de forma diferente. Mais tarde ou mais cedo, todos vão ser confrontados com a diferença. E é bom que, quando esse momento chegar, a saibam encarar.

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