“Se não mudamos o nosso estilo de vida, o clima vai obrigar-nos a isso”

“Se não mudamos o nosso estilo de vida, o clima vai obrigar-nos a isso”

A frase do título é de João Camargo, convidado do segundo evento do projeto ID-Europa, que aconteceu hoje, pelas 12h, na Faculdade de Ciências de Lisboa. A nossa embaixadora Carolina Pereira conduziu uma conversa sobre alterações e justiça climáticas que trouxe más notícias mas a perspetiva de, agindo já, se conseguir contra-atacar.

Depois de uns minutos iniciais em que se tentou perceber como há ainda tantos a negar as alterações climáticas, apesar de a comunidade científica não deixar margem para qualquer dúvida, passamos diretos à questão da justiça climática. Não é lícito pedir o mesmo esforço no combate às alterações climáticas a um país altamente desenvolvido, como a Dinamarca ou os Estados Unidos, e a um país com graves lacunas nos transportes ou serviços de saúde. João Camargo, a propósito de uma pergunta da audiência, lembra uma questão importante: se a União Europeia tem conseguido liderar as métricas de combate às alterações climáticas, é em parte por ter “exportado” a poluição.

O que quer isto dizer, exportar a poluição? Simples. Pensemos na China. A China fez um trajeto ao longo dos últimos anos de poluição crescente até se tornar no maior poluidor a nível mundial. Mas… e quem compra os produtos chineses, aqueles que são a razão pela qual a China é um enorme poluidor? Muitos deles são comprados na Europa. Ora, isso é “exportar” a poluição: continuamos a consumir os produtos, mas enviamos a sua produção para longe, para um local onde não nos estragam as métricas e onde não observamos as suas consequências diretas. (recordamos que podes ler aqui e aqui sobre as medidas que a União Europeia tem tomado sobre este assunto).

Uma solução para resolver o problema poderia ser criar regras mais “apertadas” em termos ambientais para os produtos importados para a União Europeia. Aliás, essa é talvez das formas mais fáceis de liderar a mudança: o bloco comercial de 500 milhões de cidadãos que é a União Europeia tem um poder ímpar para modificar comportamentos em todo o mundo. Falta vontade política.

E para a substituição dos combustíveis fósseis, qual é a solução? Segundo o João, “todo o capital existente tem de ser investido em desenvolvimento de soluções para resolver o problema”. Em resposta a uma pergunta da audiência, João Camargo disse que, para ele, “pior que o problema das alterações climáticas, só a energia nuclear”, argumentando com os diversos acidentes e com a dificuldade de processar os resíduos nucleares. Assim sendo, para João Camargo a resposta não passa por aí, mas por uma modificação completa da economia, afastando a atividade económica de práticas insustentáveis ambientalmente e investindo em reduzir as emissões (novas fontes de energia), dar condições às populações afetadas pelas alterações climáticas que já estão em curso, e adaptar o nosso estilo de vida ao “novo” planeta que teremos pela frente.

Houve ainda tempo para relacionar um dos problemas da União Europeia dos últimos anos, as migrações, com as alterações climáticas. Segundo João Camargo, “o que aconteceu na Europa nos últimos anos não foi nada quando comparado com o que aí vem”. A massa populacional que será deslocada devido às alterações climáticas será gigantesca, e a pressão migratória fará inevitavelmente sentir-se na Europa.

O ID-Europa estará novamente na estrada na próxima semana, com eventos no Instituto Superior Técnico (terça, 12h30) e na FCT-Nova (quinta, 13h).

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