Porque são na Europa os bilhetes de avião mais baratos do que os de comboio?

Porque são na Europa os bilhetes de avião mais baratos do que os de comboio?

Numa Europa a várias velocidades, viajar de avião continua a ser mais atrativo e barato do que viajar de comboio. Quando olhamos para metas climáticas que queremos atingir, não podemos de todo esquecer que o sector dos transportes foi responsável por 24% de todas as emissões de gases com efeito estufa na União Europeia. Este número incluí as relacionadas com os transportes marítimos internacionais e a aviação e refere-se ao ano de 2009.

Reduzir a dependência dos europeus dos métodos de transportes mais poluentes é por isso essencial numa Europa que se preocupa com o ambiente e a sustentabilidade. A aposta deve passar pelos modelos de mobilidade suave – como as bicicletas – nas deslocações mais curtas e tentar tornar competitivas as deslocações através da ferrovia para deslocações até (pelo menos) aos 1000 km.

Olhando apenas para a realidade da Península Ibérica percebemos que podemos facilmente viajar de Barcelona a Madrid de comboio num tempo entre as 2h30 e as 3h (são 500 quilómetros em linha recta). Nesse eixo os comboios de alta velocidade saem praticamente a cada hora das duas maiores cidades espanholas. Já os restantes 500 km entre Madrid e Lisboa demoram mais do triplo a serem percorridos: num tempo que ronda as dez horas.

A prova de que uma ferrovia com um tempo competitivo atrai passageiros é que a quota de mercado do comboio entre Madrid e Barcelona se situa nos 65%. Em relação a Lisboa-Madrid não há números, mas o serviço ferroviário é deficitário.

Mesmo que a viagem na ferrovia fosse competitiva a nível de tempo, o trajecto de comboio em lugar sentado custa tanto até Madrid como os voos directos para Barcelona oferecidos pela TAP, por exemplo.

Já no centro da Europa deparamo-nos com o mesmo problema: a falta de convergência entre os tarifários dos vários operadores ferroviários a nível europeu (sendo uma boa parte operadores públicos) leva a discrepâncias que fazem com que o avião continue a ser muito competitivo para os passageiros, nomeadamente a nível do preço, apesar dos prejuízos a nível ambiental.

No Parlamento Europeu, o grupo parlamentar dos Verdes/Aliança Livre Europeia (Greens/EFA) tem feito várias propostas ao longo da última legislatura europeia para existir uma discriminação positiva em relação ao transporte ferroviário, mas essas ambições esbarram também no facto de essa ser uma competência dos próprios Governos, que gerem essa matéria fiscal. Ainda assim pequenos passos têm sido dados na melhoria das condições do transporte ferroviária e os próprios fundos de coesão têm apoiado a renovação dos sistemas ferroviários de vários países da UE.

Por cá resta-nos esperar pela aguardada linha entre Évora e Elvas, que permitirá encurtar distâncias em relação à capital espanhola e nos aproximar do centro Europa, mas cujo apenas o mais fácil troço (entre Évora Norte e o Freixo, no Redondo) foi ainda adjudicado (fruto da fraca execução dos fundos comunitários do programa Ferrovia 2020). Só depois disso podemos passar a tomar o comboio como uma opção (mais) viável em deslocações dentro da península e ficar mais perto do centro da Europa.

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