Quero viver numa Europa feminista

Quero viver numa Europa feminista

A União Europeia é feita de algo que é simultaneamente uma riqueza e um desafio: a diversidade. A diversidade de países e povos e, como tal, de culturas, mentalidades e preocupações. Não faltam relatórios, recomendações e documentos que definam os Direitos Humanos e em particular os direitos das raparigas e mulheres como pilares absolutos da construção europeia. Na Carta dos Direitos Fundamentais, por exemplo, a palavra “igualdade” é mencionada sete vezes. O artigo 23 é sobre a “Igualdade entre mulheres e homens” que, escreve-se, deve ser “assegurada em todas as áreas, incluindo em matérias de emprego, trabalho e remuneração”.  Mais: “O princípio da igualdade não deve abster a que se mantenham ou adotem medidas que privilegiem o sexo sub-representado”, que já todos sabemos qual é. Ou seja, a igualdade é para se atingir, nem que seja preciso invocar as chamadas medidas de discriminação positiva (como as quotas de género, aplicadas em muitos parlamentos, nomeadamente o português).

Os princípios estão lá e impõem-se a países tão diferentes como Portugal, Chipre ou a Noruega. Para uns é natural construir algo considerando a igualdade, seja um conselho de ministros (e ministras) ou um debate televisivo. Para outros, é uma questão chata a que têm de atender de quando em vez em nome de certos objetivos.

Viver na União Europeia e num mundo globalizado é saber que há países com multas avultadas para quem ousar praticar discriminação salarial em função do género, mas também países onde se praticam declarados atentados aos Direitos Humanos, como a mutilação genital feminina ou os casamentos infantis. É saber que, nas maiores potências europeias, há hábitos que causam controvérsia como o uso do hijab. É saber que a liberdade de circulação permite que raparigas de vários países se conheçam, se reúnam e criem associações juntas, mas também que a violência sexual está longe de ser erradicada — e é um medo alimentado por pais, amigos e pelas próprias potenciais vítimas. É saber que há projetos extraordinários sempre a nascer, como os Male Feminists Europe, e que, à mesma velocidade mas no sentido contrário, cresce o “populismo anti-feminista”, como descreve Gwendoline Lefebvre. A presidente do European Women’s Lobby é clara: “Temos de ter em conta que a mudança está a acontecer a um ritmo diferente nos diferente cantos da Europa”. Uma Europa feminista não é uma utopia, é um objetivo que implica conhecer, ouvir, entender e planear em conjunto, no terreno, com os locais. Um objetivo que implica que não paremos de puxar a corda mesmo que as tempestades apareçam de vez em quando. Uma Europa feminista é uma Europa mais justa, mais honesta, mais feliz, mais rica. A diversidade é mais privilégio que prejuízo.

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